Isto não é uma crítica

Outubro 19, 2009

Há quem acredite que não existe mallogragem dentro de nós. Pessoas que, nos últimos dois meses, chamaram este blog de reclamão, pessimista, deprê a valer e, o mais sinistro de todos, sério demais. Pessoas que crêem em trabalho, auto-superação, heroísmo. Gente que não vê poesia no chafurdar, lirismo na obra malsucedida, que não riu quando assistiu a Two Girls, One Cup.

Pessoas tão mallogras quanto eu e você.

Outubro 9, 2009

Albert Montt

Ética a Nicômaco?

Outubro 6, 2009

A mallogração está para a racionalidade assim como a lógica difusa está para o binômio verdadeiro/falso. O raciocínio cartesiano realmente facilitou  chegar à Lua, pesquisar partículas subatômicas ou mesmo criar o velcro e a raquetinha para matar pernilongos – dentre outras maravilhas do mundo moderno – a partir da contraposição entre o certo e o errado, tudo bonitinho, preto no branco, cientificamente.

Contudo, a essência humana passa longe daí, pois, assim como a internet não seria divertida sem as pessoas que levam a sério tudo que lêem por aqui, a vida seria entediante pacas se não houvesse esta pitada de incerteza, a zona cinzenta do TALVEZ que permite não apenas a mudança de opinião sobre assuntos mil como também a modificação de personalidade e comportamento de cada um dos mallogrinhos que habitam este planeta (sem discriminação contra Ets ou Its, o problema é a falta de base empírica).

Ninguém precisa ter opinião sobre tudo, quanto mais opinião firme, sob pena de se tornar uma pessoa tão engessada intelectual e espiritualmente quanto uma Carta Capital ou uma Veja, o que, convenhamos, A NÍVEL DE REVISTA, é pior do que ser uma Tititi ou Atrevida ou Nintendo World ou Revista Nova Escola.

Sente só, o errado não é mudar, é resistir à mudança por ter certeza sobre algo.

Entre 0 e 1, a escolha mallogra é pelo 0,5.

Dig, Lazarus, Dig

Outubro 5, 2009

Cada indivíduo possui uma relação distinta com a vidinha mallogra. Embora não sejam muitos os que sequer conseguem perceber se estão envolvidos em alguma mallogración, ou o quão envolvidos podem estar, é certo que há momentos precisos em que a força primordial se manifesta de forma brutalmente poderosa e, às vezes, reveladora. Isso para todos, sem exceção. Se é possível qualificar o substantivo Mallogro, o adjetivo ideal seria democrático.

Partindo de que todo mundo mallogra, proponho dividir neguinho de acordo com a época das vidas em que a mallogração começou a ter efeito prático e visível. São categorias ilustrativas para o único tipo de gente que existe: o humano Mallogro. Fique atento para sacar que, na soma final, tanto faz quando, onde ou como você começou a mallograr. Destino existe, mas não é controlável. Ninguém tem culpa de nada e o fim de cada um acaba sendo o mesmo. As combinações homem vs ação vs universo são infinitas.  Não imagino o tipo de gente que tem frequentado isso aqui, mas todos são convidados a contribuir com exemplos nos comentários.

Posso citar aqueles que são abraçados pela aura mallogra logo no início da vida e seguem mallogrando ininterruptamente até morrerem, jovens ou velhos. O que caracteriza esse tipo de neguinho é a presença constante de merda e desgraça durante a vida. Nada anormal. Da perda da perna em Cachoeiro às incursões pelo rap, Roberto Carlos, o Rei, tem sido exemplo vivo desse tipo de gente tão íntima da força primordial – não tão íntima quanto os que já nasceram fodidos, outro possível grupo.

Se RC adquiriu problemas físicos e mentais seis anos depois de ter vindo à vida, existem, também, os que nasceram defeituosos. Não quero citar os aleijados pernetas cotós retartados portadores de necessidades especiais,  pois não pretendo iniciar discussões idiotas sobre preconceito e inclusão social, apesar de o mendigo deficiente que apedreja os transeuntes na comercial da minha quadra ser uma ótima ilustração para esta categoria. Melhor usar um bróder hipotético que tenha nascido feio. Narigudo. Por isso, zoado. Por isso, traumatizado. Por isso, pode ter começado a ter ideias sinistras. Não seria grande surpresa se, ocasionalmente, começasse a participar de uma seita que venera etês e busca a imortalidade através de um mix de crenças bizarras. Não o culparia por matar dez inocentes num atentado sinistro num shopping em nome de um etê diabólico ou por não ter feito alguma terapia antes que isso ocorresse. Essa é mais uma categoria possível e pode até coexistir com a anterior.

E se, por algum acaso, talvez por milagre, a pessoa não se deparasse com a presença mallogra até o fim da vida? É óbvio que quem não mallogrou sequer uma vez antes de morrer está sendo mais mallogro que os bróders mallogreiros véios de guerra. Isto porque neguinho está sendo mallogro ao não mallograr. Se você não mallogra, invariavelmente estará entrando num fight contra a força primordial, contra o universo ou, se preferir, contra seu próprio deus, e, portanto, estará, sim, mallogrando. O número de vírgulas na última frase atesta que, ao mesmo tempo em que tomei cuidado para não mallograr contra a gramática, criei uma frase escrota, feia pra cacete. Correta, mas mallogra.

Ignorance is bliss.

Update: A seguir, posts mais curtos.

Desde os tempos mais primórdios, hormônios arcaicos trabalham nas cabeças mallogras masculinas visando estratégias para lograr atenção de mulheres, fêmeas, piriguetes, putas e damas da high society. Fossem bastões bem polidos com pregos nas pontas, fossem dread locks, as modas passaram – mas as suas condicionantes mantiveram-se persistentes.

Existem conexões com o polegar opositor, com o sedentarismo e a obsolescência da dentição com cisos. Existem também controversas relações com a eminente acumulação de líquido no cérebro e o recrudescimento do cerebelo com a tonificação muscular. O cruzamento de sulcos pela dura-mater retesada com aulas na academia proporcionou significativas complexificações de caráter mnemônico e histriônico, para não dizer histérico.

E, se não bastasse tudo isso, a vida de superestrutura permitiu uma vasta gama de estimulantes para a dispersão coloidal, em que homens decidem agir como babacas e tomar atitudes estúpidas para pegar mulher. Como gelatinas em Tyndall, lampejos refratam o mínimo de bom senso nestes seres e os colocam num transe lisérgico que lhes coloca em situações esdrúxulas.

Se durante períodos anteriores à chegada de Renato ao medievo defelino basicamente a postura peremptória seria de se antecipar a tudo, todos, o mundo, as desculpas e apresentar o falo rijo ante a donzela amada, atualmente existem registros sofisticados de ataques súbitos de estratégias difusas, partindo desde o básico cursinho de violão aos complexos malabares e às linhas da mão.

Hoje faz-se basicamente toda sorte possível de artimanhas para se conquistar uma dama, inclusive oferecer o próprio orifício anal como magia simpática, na qual aquilo que se faz, toca, ou experimenta, retorna em ampla fortuna para o iniciante. Se no medievo usava-se dos ocultismos e quiromancias, hoje é-se capaz de complexos jogos de psicologia reversa em que os neófitos lêem Dolce&Gabanna, vestem Deleuze&Guattari, param de comer carne e, hare-baba, vão banhar-se no Armani com túnicas laranjas e óculos Gângis, celulares xingy-ling, essas porras todas. Mallogragem.

Ser cético é mallograr no mesmo nível que visitar uma cartomante na W3 Sul. O que seria pior: acreditar cegamente ou duvidar teimosamente do que não pode ser comprovado por cientistas, estes caras que são humanamente mallogros como todos os outros? O cético e o crente saberiam responder à pergunta, talvez a maioria das pessoas. Para mim, no entanto, seria mais fácil responder ao clássico Dilema de Neguinho: “dar o cu pra uma mina ou beijar a boca de um mendigo?”.

A falta de uma explicação científica não acaba com a discussão. “Ausência de evidência não é evidência de ausência”, disse Carl Sagan, talvez o mais importante debunker e cético da história científica moderna, reconhecendo as limitações dadas pelos nossos cinco sentidos. Ele estava à frente de Harry Houdini que, anos antes, achou que pudesse desbancar todos os charlatões e místicos do mundo. Depois de ganhar um Emmy (!), trabalhar para a NASA antes/durante/depois da corrida espacial, receber um Pulitzer de literatura e ser comparado por muitos com os grandes pesquisadores de todos os tempos, Sagan sabia que o homem não é capaz de compreender uma mínima parte do Universo. Houdini, o  mágico-mithbuster dos anos 1920, acabou morrendo mallogramente após um número. Cheio da grana, se deixou levar pela ciência.

Quem disse “DUVIDE DE TUDO” não sabia que estava sendo, sem querer, a pessoa mais irracional do planeta. A ideia de que o homem pode compreender as coisas da forma como elas são é romântica. Não temos o aparato para isso, nunca teremos. A ciência é mallogra. É humana. Nós não sabemos nada sobre nós mesmos; menos ainda sobre o universo. Nunca saberemos. Perto do infinito, não somos tão distantes de um aminoácido.

Nunca duvide de nada.

De quebrada e onipresente

Setembro 9, 2009

Depois de pensar muito (tipo uns 20 minutos, sinistro) sobre os eventos anuais em memória ao showzão pirotécnico de 11 de setembro de 2001, eu decidi que, na real, não quero mais escrever sobre isso. Os atentados podem até ter sido o grande marco da entrada do milênio mas, when you add up the numbers, apenas atestam a velha ideia de que todo mundo mallogra em todo canto, o tempo todo. Assim sendo, vou voltar ao assunto inicial do blog.

Escrevi no primeiro post que tudo o que existe tem uma carga de mallogrice, que não tem como existir no universo sem mallograr. Mas o que certamente elevou a parada a um novo nível foi o surgimento de um grande artifício evolutivo, o polegar opositor.  Erguemos casas – umas ficaram de pé e outras caíram, mallogras. Construímos canoas – umas navegaram, outras afundaram, mallogras. Derrubaram o Coliseu – grandes merdas. Impérios surgem e mallogram até hoje. Crucificaram uma galera. Criamos a filosofia, a política, a moral, a religião (esta última, relacionamento poligâmico entre as anteriores) – nenhuma delas serviu para nada além de tornar neguinho deprimido, mallogrado. Escolas, prisões, manicômios, repartições públicas. Quando tudo parecia mallogrado ao máximo, apareceu o consumo para nos lembrar de que nada é 100% fodido.

A Presença Mallogra não perdoa e vai continuar aí, de quebrada e onipresente. Indo e vindo. Mallogração gerando mallogração, da mesma forma como foi no episódio das torres gêmeas – quando política, religião e o consumo, mallogros  patrocinadores dos atentados, se mostraram cinicamente sólidos e resolvidos, enquanto os pobres sequestradores suicidas pagavam o pato virando torrada. Já aconteceu antes e vai continuar acontecendo.

E eu nem falei sobre os filmes zela cujo tema é a terça-feira 11.

Renderia ainda muito mais conversa inútil sobre a tal força inevitável.

Não adianta exorcismo, vida limpa, simpatia, vidaloka, suicídio, retiro espiritual, pescaria, terapia primal ou pós-doutorado. A Presença Mallogra é inafastável – a prova mais recente disto são os players de música digital sendo batizados de MP6, MP7, MP23 de acordo com o número de funções embutidas.

Setembro 5, 2009

Por essência, Brasília é uma cidade massa, o que a mallogra são as pessoas.

Exemplo: quando viaja, neguinho consegue ser capiau full time.

É capiau quando vai na cachu, curtir aquela vibe natiruts reggae power e tira foto escalando pedra, pulando da ribanceira, correndo doidão atrás de vaca no pasto, zoando os locais, e não percebe que, na real, o Chico Bento da situação está do lado de cá, reproduzido em álbuns do orkut e do flickr.

Como não poderia deixar de ser, também é roceiro na cidade grande.

A galera que trabalha na Avenida Paulista deve ficar de cara com a quantidade de brasilienses que, entra dia, sai dia, tão lá, tirando fotos forçadamente casuais, mallogrando com pose blasé os cruzamentos e sinais daquela rua, que, no final das contas, é apenas isto: uma rua.

Por sinal, parece que os arcos da Lapa são como a África do Sul: logo ali, do lado do Pátio Brasil, tamanha a quantidade de gentes desta cidade que insistem em mallograr o bairro carioca e possuem fotos com uma lata de Itaipava quente na mão, um sorriso de turista panaca no rosto e o Circo Voador ao fundo.

 

Em suma: mallogration society.

Setembro 3, 2009

“O cúmulo do mallogro é ser o Tony Martin”.

Dogão

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